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Como monitorar os principais causadores da Doença Respiratória Bovina?

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A doença respiratória bovina (DRB), broncopneumonia, ou pneumonia é a segunda maior causa de mortalidade em bezerras na fase de aleitamento, além de ser a primeira causa de morte após o desmame. Nos Estados Unidos, a taxa de mortalidade causada por DRB chega a 24% na fase de aleitamento e 58,9% nas bezerras desmamadas. A DRB também é responsável pelo descarte de 2,1% das vacas adultas (USDA, 2014).

As perdas econômicas da doença respiratória não estão relacionadas apenas com os custos do tratamento, assistência veterinária, mortalidade ou remoção do animal do rebanho. A presença de doença respiratória nos estágios iniciais da vida da bezerra pode ter efeitos significativos na sobrevivência, desenvolvimento e produtividade futura. Bezerras com diagnóstico positivo para a DRB apresentam duas ou mais chances de morrer antes do parto e aumentar a idade ao primeiro parto, quando comparados às novilhas que não desenvolveram doença respiratória antes dos 90 dias de idade (GORDEN; PLUMMER, 2010), além disso, estudos mostram a redução do ganho de peso diário e diminuição da produtividade na primeira lactação (STANTON et al., 2012). Para as vacas adultas os custos ainda incluem a prevenção com a compra de vacinas, redução da produtividade e o descarte doleite durante o período de tratamento. Vários pesquisadores tentam estimar os custos das perdas ocasionadas pela doença respiratória, que podem variar de US$ 9,84 a US$ 16,35 (aproximadamente R$49,99 – R$83,06) por bezerro em aleitamento, US$ 2,05 a US$ 2,22 (aproximadamente R$10,41 – R$12,28) por bezerro desmamado e US$ 4,31 a US$ 9,08 (aproximadamente R$21,90 – R$46,13) (GORDEN; PLUMMER, 2010).

A Doença Respiratória Bovina geralmente é causada por uma infecção mista entre vírus e bactérias, sendo os principais agentes descritos no quadro 1. Cabe ressaltar que a instalação da DRB é uma associação de fatores ligados ao animal, aos fatores de risco e aos agentes envolvidos na doença que estão dispostos no quadro 1.

Quadro 1 – Principais agentes bacterianos e virais causadores da DRB

doença respiratória de bovinos agente etiológicos

Quanto aos fatores de risco, estão relacionados falha da transferência de imunidade passiva pelo fornecimento ou qualidade inadequada do colostro, protocolos de vacinação inadequados, dietas restritivas, manejo estressante dos animais, falhas na biosseguridade na propriedade, além de fatores ambientais como a utilização de baias coletivas com grande número de animais, contato direto de animais jovens e adultos, qualidade inadequada da cama e do ar e ventilação inadequada (FULTON et al. 2009). Os fatores relacionados ao animal são aqueles que dizem respeito a capacidade do sistema imune do indivíduo de responder aos agentes circulantes na propriedade e aos agentes vacinais, além do estresse nas fases de produção como o desmame e o periparto.

As infecções virais se iniciam quando o animal sofre uma redução da resposta do sistema imune (imunossupressão), devido a algum tipo de estresse, propiciando o desenvolvimento de rinotraqueítes e bronquites. Em uma segunda etapa, as bactérias oportunistas se aproveitam das lesões causadas pelos vírus e da ruptura das barreiras de proteção do sistema respiratório e promovem uma infecção secundária, agravando o quadro respiratório e estabelecendo a forma mais comum de pneumonia bacteriana no gado adulto, a broncopneumonia. A detecção da doença geralmente é realizada na fase de infecção bacteriana, já que os sinais clínicos são mais evidentes.

O diagnóstico precoce e preciso da doença é essencial, devido não só a redução de gastos com o tratamento deste animal para o produtor de leite, mas também resultará em menores sequelas nos pulmões e desenvolvimento dos animais, além da possível redução na taxa de mortalidade da propriedade.

A detecção da doença respiratória nas propriedades geralmente é realizada pelos colaboradores, os quais devem ser treinados pelos médicos veterinários responsáveis pelo bezerreiro. Em geral são observadas as seguintes manifestações clínicas: animal aparenta estar doente, diminui o apetite, apresenta febre, respiração rápida ou dificultosa e pode apresentar tosse, secreção nasal e secreção ocular. Bezerras que demonstram algumas destas alterações mas sem diarreia são frequentemente tratados para a DRB, porém de forma subjetiva e muitas vezes sem critério. Assunto hoje em pauta pela questão do uso excessivo de antimicrobianos nos sistemas de criação e desenvolvimento da resistência aos antimicrobianos.

A fim de criar um maior rigor no diagnóstico e auxiliar na tomada de decisão quanto ao tratamento, a Universidade da California (2018) criou um método de triagem semanal das bezerras em aleitamento por meio de um sistema de escore de doença respiratória, que avalia temperatura retal, tosse, secreção nasal, secreção ocular, posição da cabeça e orelhas e padrão respiratório. A pontuação usada para o mesmo segue a classificação apresentada na Figura 1. A soma das pontuações ≥5,0 indica possível DRB.

Figura 1 – Sistema de escore para triagem de bezerras em aleitamento positivas para a Doença Respiratória Bovina, padronizado pela Universidade da Califórnia.

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Além do uso do sistema de escore, o médico veterinário do bezerreiro pode ainda realizar exames radiográficos e ultrassonográficos (OLLIVETT; BUCZINSKI, 2016). A adoção destes exames na rotina da fazenda depende da disponibilidade dos aparelhos, que muitas vezes representa um alto investimento, e do treinamento do médico veterinário responsável. A ultrassonografia tem se destacado para o diagnóstico, devido à presença do ultrassom nas propriedades para a realização dos exames reprodutivos, além da sua alta especificidade e sensibilidade.

Figura 2 – Imagem de exame ultrassonográfico do pulmão de uma bezerra com presença de lesão intrapulmonar subpleural (seta)

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A instituição de tratamento de maneira mais adequada ocorre quando a propriedade consegue identificar e isolar os principais agentes causadores da DRB. Para isso é necessária a coleta de material para realização dos exames laboratoriais listados no quadro 2. A realização dos testes laboratoriais depende da disponibilidade de laboratórios comerciais.

Quadro 2 – Exames diagnósticos para a detecção dos agentes causadores da DRB.

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PBS = solução salina tamponada estéril; BHI (Brain Heart Infusion) = meio líquido para a cultura bacteriana.

Para realizar a coleta do swab nasofaríngeo, após a contenção do animal, ambas as narinas devem ser limpas primeiramente com papel seco e, logo após, com algodão embebido em Álcool 70°. O swab com cabo de plástico deverá ser introduzido em uma das narinas sem que encoste em nenhum outro local de sua região externa, para não haver contaminação. Recomenda-se que a realização do lavado traqueal seja feita por um médico veterinário treinado, ou funcionário responsável treinado e com experiência.

Deve-se optar coletar amostras de animais afetados de maneira aguda, ao invés dos casos crônicos, pois desta forma serão obtidas respostas clinicamente relevantes e não apenas a presença de agentes secundários. Também é importante observar a criação de uma maneira geral, se atentando a presença dos fatores de risco já mencionados que podem contribuir para o aumento de casos de DRB.

Após o óbito de animais suspeitos também é importante a necrópsia com a utilização de documentação por meio de fotografias seja realizada. O exame necroscópico deve ser realizado em local isolado para não haver contaminação dos demais animais, à sombra para evitar maior deterioração do cadáver, forrando o solo com lona para evitar sua contaminação e utilizando materiais de proteção. As fotos devem ser apresentadas ao médico veterinário da propriedade para a observação das alterações macroscópicas, de acordo com a localização, tamanho, cor, forma, consistência, número, extensão, superfície, corte, conteúdo, distribuição e odor.

É importante que também sejam enviadas amostras dos tecidos em solução de formol a 10% para um laboratório diagnóstico para a realização de exame histopatológico. As amostras teciduais devem ser coletadas logo após a morte do animal, evitando alterações decorrentes da autólise tecidual pós-morte. Os órgãos sugeridos para coleta estão dispostos na tabela 3. Os fragmentos devem ser colhidos em duplicata para envio separado de amostras em formol a 10% para laboratório de patologia, e outro para laboratório microbiológico, o qual deve ser refrigerado.

O fragmento de tecido deve ter tamanho adequado para que a relação entre o volume da peça e de formol seja de pelo menos 1:10 para a correta fixação. Caso o órgão do animal apresente alterações macroscópicas, é necessário a coleta de um fragmento que contenha a transição entre a porção alterada e a porção sem alterações visíveis.

O acondicionamento dos órgãos deve ser realizado em frascos limpos e bem vedados. O transporte das amostras refrigeradas até o laboratório de microbiologia precisa ser em frasco limpo, dentro de isopor com gelo, de preferência reciclável. É importante que as amostras sejam identificadas com número do animal e o nome órgão coletado.

Quadro 3 – Amostras para diagnóstico de DRB pós-morte

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Em animais com a doença aguda em curso, nem sempre haverá tempo hábil para o retorno dos resultados laboratoriais antes da instituição do tratamento, portanto o mesmo deve ser iniciado e, após a interpretação dos exames, caso necessário, realizada uma mudança do princípio ativo. A utilização de exames complementares é uma ferramenta muito importante para utilizar antibióticos e vacinas relacionados aos agentes circulantes em sua propriedade.