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Produção de leite: um problema ou uma mãozinha para o planeta?

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Muito tem se falado sobre sustentabilidade, preservação do meio-ambiente e produção baseada na redução da emissão de gases de efeito-estufa; e a cadeia de produção de leite é sempre citada quando a pauta é esta.

A bovinocultura é frequentemente apontada como grande emissora de gases do efeito-estufa e isto leva a discussões sobre a diminuição do consumo de leite e carne. Mas, afinal, as vacas e as mudanças climáticas estão realmente relacionadas?

Vamos analisar primeiramente o ciclo do carbono na cadeia láctea.

As vacas fazem parte de um sistema composto por ar-solo-grama-animal e os processos químicos, físicos e biológicos que ocorrem neste sistema exigem muito mais estudos para responder este questionamento.

Uma parte natural da atmosfera é composta por dióxido de carbono (CO2) – constituindo 0,04%. Todas as plantas, inclusive as gramíneas das quais os bovinos se alimentam, dependem de CO2 para seu crescimento.  Do solo, as plantas retiram água (H2O), e, juntamente com o CO2, produzem longas cadeias carbônicas que vão se tornar açúcares, gorduras e proteínas. Ao ingerir as gramíneas, os bovinos consomem estes nutrientes e produzem leite.

Os humanos, por sua vez, consomem os produtos lácteos produzidos a partir desta cadeia de carbono e, após a metabolização, expelem CO2 para a atmosfera.

Desta forma, existe um ciclo fechado de produção e utilização do CO2 no caso dos lácteos: o CO2 que as gramíneas retiraram do ar alimenta as vacas que, por sua vez, produzem o leite que alimentará o ser humano e este devolverá ao ar o CO2Esse ciclo não altera temperaturas ou influencia o clima da Terra, porque nenhum CO2 adicional foi criado.

Mas e o metano?

A Agência Espacial Europeia (ESA) publicou imagens de satélite referentes a presença de metano na atmosfera (figura 1) que ajudam a responder se as vacas são grandes responsáveis pela emissão do gás – vermelho mostra alta incidência de metano e azul, baixa.

Figura 1. Incidência de metano na atmosfera. Fonte: Agência Espacial Europeia (ESA)

emissão de metano mundial

No mapa, é clara a alta emissão de metano nas regiões da China – devido as queimas de carvão e óleo – e na Rússia. (Figura 2 e 3)

Figura 2. China com pontos de emissão de metano. Fonte: Agência Espacial Europeia (ESA)

emissão de metano mundial

Figura 3. Regiões da Rússia com pontos de emissão de metano. Fonte: Agência Espacial Europeia (ESA)

emissão de metano Russia

Por outro lado, na mesma imagem é possível observar a América do Sul – mais especificamente o Brasil, que possui o maior rebanho bovino do mundo, com mais de 212 milhões cabeças – semgrandes concentrações de metano observadas do espaço(Figura 4).

Figura 4. Concentração de gás metano no Brasil visto do espaço. Fonte: Agência Espacial Europeia (ESA)

emissoes metano brasil

As mesmas percepções são válidas para a Etiópia e Sudão, que mantêm um rebanho de 96 milhões de cabeças (mais do que toda a União Europeia), e, de acordo com as imagens, também não demonstram grandes concentrações de metano observadas do espaço (Figura 5).

Figura 5. Concentração de gás metano na Etiópia e Sudão visto do espaço. Fonte: Agência Espacial Europeia (ESA).

emissão de metano etiopia sudao

O principal alimento dos bovinos, as gramíneas, são compostas por celulose, elemento indigestível para o ser humano. Sendo assim, não há competição por alimentos entre homens e bovinos – em sistemas de criação apenas a pasto, sem inclusão de grãos para fornecimento.

Em pesquisa realizada pela FAO, os dados apontam que apenas 14% dos alimentos consumidos pelos rebanhos bovinos seriam adequados para consumo humano. Sendo assim, os bovinos garantem que esses recursos inicialmente inúteis se tornem valiosos em forma de carne e produtos lácteos.

Os bovinos possuem um órgão chamado rúmen, que contém bactérias capazes de degradar as gramíneas através de um processo químico que resulta em CH4, também conhecido como gás metano, que é expelido ao meio ambiente por meio da eructação dos animais.

metano permanece na atmosfera por um curto período, mas absorve mais energia térmica do que o CO2, o que faz alguns cientistas acreditarem que cause danos ao planeta e gera novos questionamentos em torno dos rebanhos bovinos e sua responsabilidade perante as mudanças climáticas. Porém, a existência de rebanhos bovinos não é algo recente.

Os bovinos existem há milhões de anos e a emissão de metano deles acontece desde sempre. Embora hoje exista uma quantidade considerável de bovinos domesticados e não se sabia com exatidão o tamanho desta população antigamente, alguns outros dados acabam trazendo questionamentos, como, por exemplo, a população de elefantes. Há quase 500 anos havia cerca de 26 milhões de elefantes África, hoje, a população se resume a cerca de 100 mil e, para apenas estes, a produção de metano é proporcional a quase todo o rebanho leiteiro da Europa.  

Ou seja, se os rebanhos de grandes animais dos períodos pré-industriais não foram capazes de aquecer o planeta ao longo dos milhões de anos, não serão os rebanhos de animais domesticados que o farão.

Os ruminantes não podem ser responsabilizados pelas mudanças climáticas que o homem causa.O leite, por exemplo, desempenha um papel tão importante na nutrição que a FAO (Organização das nações Unidas para Alimentação e Agricultura) implementou, em 2001, o dia mundial do leite nas escolas, do qual participam 40 países; sem falar na carne, que é altamente nutritiva.

Até mesmo o IPCC – Painel Intergovernamental Sobre Mudanças Climáticas – não chegou a uma conclusão sobre o assunto. No relatório mais abrangente sobre impacto da agricultura no clima, de agosto de 2019, permanece vago a responsabilidade dos bovinos perante as mudanças climáticas. Na página 489 de 829 do relatório consta a seguinte informação: “No entanto, analisar a produção de carne de ruminantes é altamente complexo por conta da extrema heterogeneidade dos sistemas de produção e devido aos inúmeros produtos e serviços associados aos ruminantes”.

Com isso, de acordo com o IPCC, reduzir o consumo de produtos provenientes dos ruminantes (carne e leite), não seria eficaz se tratando de conservação ambiental. Desta forma, não é válido manter discursos de repressão à criação de gado de leite e de corte baseados em alterações climáticas, uma vez que os animais muito pouco têm a contribuir para essas mudanças.

Este artigo foi produzido com base no vídeo do Prof Dr Peer Ederer, publicado no Milk and Climate

Fonte: MilkPoint

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